📅 Publicado em: março de 2026
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De mais de 700 companhias abertas listadas na B3, apenas duas aderiram voluntariamente às normas IFRS S1 e S2 antes da obrigatoriedade: Vale e Lojas Renner. A B3 também produziu relatório alinhado ao ISSB durante o período voluntário — em uma posição singular, como operadora da infraestrutura de mercado onde as demais empresas são listadas. As primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 não tinham precedente nacional para seguir. Construíram o processo enquanto o regulatório brasileiro ainda estava sendo finalizado.
Isso torna seus aprendizados particularmente valiosos — não porque seus caminhos sejam replicáveis diretamente, mas porque os desafios que encontraram são estruturais. Materialidade financeira sem limiar quantitativo, integração entre sistemas ESG e financeiros, curva de aprendizado das equipes: esses não são problemas exclusivos de mineração ou varejo. São os problemas que toda companhia aberta vai encontrar no exercício de 2026.
O que cada uma das primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 fez de diferente
Os três cases têm setores, estruturas e exposições a riscos completamente distintos. Isso é precisamente o que os torna úteis como benchmark — cada um ilumina um aspecto diferente do desafio de implementação.
A Vale foi a primeira empresa brasileira a publicar relatório alinhado ao IFRS S1 e S2, integrando as divulgações ao seu Relatório Anual e ao Form 20-F. O desafio central, segundo José Victor Sousa, gerente-geral de Reportes Financeiros e Controles Internos, foi operacional: “O maior desafio tem sido a curva de aprendizado necessária pelas equipes para adaptar processos e controles.”
O diferencial da Vale foi a integração desde o início entre a equipe de reporte financeiro e a equipe de sustentabilidade — algo que a maioria das empresas ainda não fez. A escolha de publicar o relatório IFRS S1/S2 como parte do relatório financeiro, não como documento separado, sinalizou esse compromisso de integração. Marcelo Bacci, VP Executivo de Finanças, descreveu o resultado: “Trazemos maior profundidade de informação, com maior transparência — mostramos o que pode ser positivo e, em riscos, o que pode não dar certo.”
A Lojas Renner chegou ao IFRS S1/S2 com uma base sólida de reporte voluntário — GRI consolidado, CDP e relatório integrado. Mas a transição para materialidade financeira revelou um gap que o histórico de reporte não havia preparado a empresa para enfrentar. Alexsandro Tavares, responsável pelo processo na Renner, foi direto: materialidade financeira é uma “zona cinzenta” pela ausência de um limiar quantitativo uniforme.
O desafio específico do varejo é a extensão da cadeia de fornecedores — com milhares de fornecedores de pequeno e médio porte sem capacidade de fornecer dados de emissões. A estratégia da Renner foi priorizar os fornecedores críticos por categoria de produto e desenvolver um protocolo de estimativa documentada para os demais — exatamente a abordagem que o CBPS 02 permite e que o artigo sobre como medir emissões de Escopo 3 para o IFRS S2 detalha.
A B3 ocupa uma posição única no ecossistema do IFRS S1/S2 brasileiro: é simultaneamente uma companhia aberta obrigada a reportar e a infraestrutura onde as demais companhias abertas são listadas. Essa posição criou um incentivo adicional para adoção antecipada — a B3 havia desenvolvido iniciativas de capacitação para as empresas listadas, incluindo workshops sobre IFRS S1/S2 que já atingiram aproximadamente 90 empresas em 2024.
O diferencial da abordagem da B3 foi o ponto de partida: governança. A estrutura de supervisão do conselho sobre riscos de sustentabilidade foi documentada e integrada à governança corporativa antes de qualquer esforço de coleta de dados — estabelecendo a base que o CBPS 01 exige como primeiro pilar de divulgação.
Os desafios que as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 reportaram publicamente
Os depoimentos públicos dos responsáveis pela implementação nas três empresas convergem em dois pontos críticos — independentemente do setor ou do tamanho da empresa.
José Victor Sousa, da Vale, foi o mais explícito: o desafio não foi entender a norma — foi fazer as equipes mudarem a forma de trabalhar. Processos que existiam para relatório voluntário precisaram ser completamente redesenhados para atender ao padrão de asseguração razoável. A diferença entre “coletar dados” e “coletar dados com rastreabilidade auditável” parece pequena no papel — na prática, exige treinamento, sistemas diferentes e uma cultura de documentação que a maioria das equipes de ESG não tinha.
Alexsandro Tavares, da Renner, nomeou o problema com precisão: “zona cinzenta”. Diferentemente do GRI, que tem critérios relativamente claros para priorização de temas, o CBPS 01 não estabelece um limiar quantitativo uniforme para materialidade financeira. Cada empresa precisa construir seu próprio processo de avaliação — e documentá-lo de forma que resista à verificação de um auditor. Não há resposta certa pronta. Há um processo que precisa ser conduzido com rigor e documentado com transparência.
Os padrões comuns entre as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2
Por trás das diferenças setoriais, três padrões se repetem nas primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 voluntariamente — e são precisamente os padrões que o CBPS 01 e 02 exigem de todas as companhias abertas a partir de 2026.
Três lições das primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 para quem implementa agora
Os cases voluntários não são modelos para replicar — são referências para calibrar. Cada empresa tem setor, estrutura e exposição a riscos diferentes. Mas três lições transferem independentemente dessas variáveis.
Para entender como esses aprendizados se traduzem em um plano de ação concreto — com linha do tempo, perfis de empresa e passos específicos — leia o artigo como implementar o IFRS S1 e S2 na minha empresa. E para contextualizar onde as pioneiras chegaram em relação ao que o mercado ainda precisa fazer, leia IFRS S1 e S2 no Brasil: o que muda para companhias abertas.
Marcelo Bacci — VP Executivo de Finanças da Vale
O que distingue as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 das demais não foi tamanho, setor ou orçamento. Foi a decisão de começar — e de começar pela ordem certa. Essa janela ainda está aberta para as companhias abertas que iniciam agora. Mas cada trimestre de 2026 que passa sem governança, materialidade e controles estruturados é um trimestre de dados irrecuperáveis. Para entender por que o relatório de sustentabilidade obrigatório 2027 não permite postergação, o contexto regulatório está detalhado no segundo artigo desta série.
Primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 — perguntas frequentes
Quais foram as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2?
Vale e Lojas Renner foram as duas primeiras companhias abertas brasileiras a aderirem voluntariamente às normas IFRS S1 e S2, antes da obrigatoriedade estabelecida pelas Resoluções CVM 217 e 218. A B3 também produziu relatório alinhado ao ISSB durante o período voluntário. De um universo de mais de 700 companhias abertas, apenas esses casos de adoção voluntária existiam até abril de 2025.
Qual foi o maior desafio que a Vale enfrentou na adoção do IFRS S2?
José Victor Sousa, gerente-geral de Reportes Financeiros e Controles Internos da Vale, descreveu publicamente que o maior desafio foi a curva de aprendizado das equipes para adaptar processos e controles. A integração entre os sistemas de reporte financeiro e os dados de sustentabilidade foi o ponto de maior esforço técnico.
Como as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 abordaram a materialidade financeira?
A materialidade financeira foi identificada por todas as pioneiras como o conceito mais desafiador. Alexsandro Tavares, da Lojas Renner, descreveu o processo como uma “zona cinzenta” pela ausência de um limiar quantitativo uniforme. O ponto comum foi a necessidade de construir o processo de avaliação internamente — sem modelo pronto para replicar.
Quais são os padrões comuns entre as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2?
Três padrões se repetem entre Vale, Renner e B3: governança definida antes da coleta de dados; envolvimento do CFO e da controladoria desde o início do projeto; e reconhecimento de que a materialidade financeira exige processo interno próprio — não transposição da matriz GRI existente.
O que as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 revelam sobre o que mais importa na implementação?
Os cases voluntários revelam que o maior risco não é técnico — é de sequência. Empresas que começaram pela governança e pela materialidade antes de estruturar a coleta de dados tiveram implementações mais coerentes e auditáveis. Empresas que começaram pela coleta de dados sem materialidade definida precisaram reprocessar informações — um custo evitável.
Se você quer comparar a situação da sua empresa com o que essas pioneiras fizeram — em governança, materialidade, dados e asseguração — o Painel de Prontidão IFRS S1/S2 da Auíri é o ponto de partida. Autodiagnóstico por pilar, mapa de gaps e linha do tempo para 2026/2027.
- IFRS S1 e S2 no Brasil: o que muda para companhias abertas a partir de 2026
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Melissa Silvani é sócia e diretora de operações na Auíri, apaixonada por causas que importam e dedicada a construir pontes entre pessoas e propósitos.
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