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Pioneiras sem manual: Vale e Renner, 2 entre 700+ que adotaram voluntariamente o IFRS S1 e S2

IFRS S1 | S2 · Relatório Obrigatório 2027
As primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 voluntariamente não tinham um manual — construíram o caminho enquanto andavam. O que Vale, Lojas Renner e B3 fizeram, erraram e aprenderam é hoje o único benchmark real disponível para as 700+ companhias abertas que precisam chegar ao mesmo lugar até maio de 2027.
✍️ Por: Melissa Silvani, sócia e COO Auíri
📅 Publicado em: março de 2026
🕐 Tempo de leitura: 9 minutos
primeiras empresas brasileiras a adotar o ifrs s1 e s2 — ambiente industrial representando a escala operacional dos casos de adoção voluntária
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empresas aderiram voluntariamente de um universo de 700+ companhias abertas

Vale
primeira empresa brasileira a adotar o IFRS S1 e S2 voluntariamente

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padrões comuns entre as pioneiras que qualquer companhia aberta pode aplicar

Mai/2027
prazo para as 700+ companhias abertas chegarem onde as pioneiras já estão

De mais de 700 companhias abertas listadas na B3, apenas duas aderiram voluntariamente às normas IFRS S1 e S2 antes da obrigatoriedade: Vale e Lojas Renner. A B3 também produziu relatório alinhado ao ISSB durante o período voluntário — em uma posição singular, como operadora da infraestrutura de mercado onde as demais empresas são listadas. As primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 não tinham precedente nacional para seguir. Construíram o processo enquanto o regulatório brasileiro ainda estava sendo finalizado.

Isso torna seus aprendizados particularmente valiosos — não porque seus caminhos sejam replicáveis diretamente, mas porque os desafios que encontraram são estruturais. Materialidade financeira sem limiar quantitativo, integração entre sistemas ESG e financeiros, curva de aprendizado das equipes: esses não são problemas exclusivos de mineração ou varejo. São os problemas que toda companhia aberta vai encontrar no exercício de 2026.

O que cada uma das primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 fez de diferente

Os três cases têm setores, estruturas e exposições a riscos completamente distintos. Isso é precisamente o que os torna úteis como benchmark — cada um ilumina um aspecto diferente do desafio de implementação.

Vale — mineração, escala global e integração financeira

A Vale foi a primeira empresa brasileira a publicar relatório alinhado ao IFRS S1 e S2, integrando as divulgações ao seu Relatório Anual e ao Form 20-F. O desafio central, segundo José Victor Sousa, gerente-geral de Reportes Financeiros e Controles Internos, foi operacional: “O maior desafio tem sido a curva de aprendizado necessária pelas equipes para adaptar processos e controles.”

O diferencial da Vale foi a integração desde o início entre a equipe de reporte financeiro e a equipe de sustentabilidade — algo que a maioria das empresas ainda não fez. A escolha de publicar o relatório IFRS S1/S2 como parte do relatório financeiro, não como documento separado, sinalizou esse compromisso de integração. Marcelo Bacci, VP Executivo de Finanças, descreveu o resultado: “Trazemos maior profundidade de informação, com maior transparência — mostramos o que pode ser positivo e, em riscos, o que pode não dar certo.”

Lojas Renner — varejo, cadeia de fornecedores e materialidade como zona cinzenta

A Lojas Renner chegou ao IFRS S1/S2 com uma base sólida de reporte voluntário — GRI consolidado, CDP e relatório integrado. Mas a transição para materialidade financeira revelou um gap que o histórico de reporte não havia preparado a empresa para enfrentar. Alexsandro Tavares, responsável pelo processo na Renner, foi direto: materialidade financeira é uma “zona cinzenta” pela ausência de um limiar quantitativo uniforme.

O desafio específico do varejo é a extensão da cadeia de fornecedores — com milhares de fornecedores de pequeno e médio porte sem capacidade de fornecer dados de emissões. A estratégia da Renner foi priorizar os fornecedores críticos por categoria de produto e desenvolver um protocolo de estimativa documentada para os demais — exatamente a abordagem que o CBPS 02 permite e que o artigo sobre como medir emissões de Escopo 3 para o IFRS S2 detalha.

B3 — infraestrutura de mercado e governança como ponto de partida

A B3 ocupa uma posição única no ecossistema do IFRS S1/S2 brasileiro: é simultaneamente uma companhia aberta obrigada a reportar e a infraestrutura onde as demais companhias abertas são listadas. Essa posição criou um incentivo adicional para adoção antecipada — a B3 havia desenvolvido iniciativas de capacitação para as empresas listadas, incluindo workshops sobre IFRS S1/S2 que já atingiram aproximadamente 90 empresas em 2024.

O diferencial da abordagem da B3 foi o ponto de partida: governança. A estrutura de supervisão do conselho sobre riscos de sustentabilidade foi documentada e integrada à governança corporativa antes de qualquer esforço de coleta de dados — estabelecendo a base que o CBPS 01 exige como primeiro pilar de divulgação.

Os desafios que as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 reportaram publicamente

Os depoimentos públicos dos responsáveis pela implementação nas três empresas convergem em dois pontos críticos — independentemente do setor ou do tamanho da empresa.

Desafio 1 — A curva de aprendizado das equipes

José Victor Sousa, da Vale, foi o mais explícito: o desafio não foi entender a norma — foi fazer as equipes mudarem a forma de trabalhar. Processos que existiam para relatório voluntário precisaram ser completamente redesenhados para atender ao padrão de asseguração razoável. A diferença entre “coletar dados” e “coletar dados com rastreabilidade auditável” parece pequena no papel — na prática, exige treinamento, sistemas diferentes e uma cultura de documentação que a maioria das equipes de ESG não tinha.

Desafio 2 — A materialidade financeira sem balizador

Alexsandro Tavares, da Renner, nomeou o problema com precisão: “zona cinzenta”. Diferentemente do GRI, que tem critérios relativamente claros para priorização de temas, o CBPS 01 não estabelece um limiar quantitativo uniforme para materialidade financeira. Cada empresa precisa construir seu próprio processo de avaliação — e documentá-lo de forma que resista à verificação de um auditor. Não há resposta certa pronta. Há um processo que precisa ser conduzido com rigor e documentado com transparência.

Clayton Codo, do Ibracon, sintetizou o que os cases voluntários confirmaram: “A materialidade financeira é uma grande novidade — as empresas, mesmo as mais maduras, não tinham essa visão e consequentemente não tinham cálculos financeiros de impactos.” Mesmo Vale e Renner, com histórico robusto de reporte, precisaram construir esse processo do zero.

Os padrões comuns entre as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2

Por trás das diferenças setoriais, três padrões se repetem nas primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 voluntariamente — e são precisamente os padrões que o CBPS 01 e 02 exigem de todas as companhias abertas a partir de 2026.

Governança definida antes da coleta de dados. Nas três empresas, a estrutura de supervisão do conselho sobre riscos e oportunidades de sustentabilidade foi documentada antes de qualquer esforço significativo de coleta de dados. Isso não é coincidência — é a sequência que o CBPS 01 impõe. Sem governança documentada, não há como divulgar o primeiro pilar do IFRS S1, e sem esse pilar, o relatório não atende aos requisitos mínimos.
CFO e controladoria envolvidos desde o início. Nas três empresas, a integração entre a área financeira e a área de sustentabilidade aconteceu no início do projeto — não na revisão final. A Resolução CFC 1.710/2023 tornaria isso obrigatório formalmente, mas as pioneiras chegaram a essa conclusão pela lógica da asseguração razoável: sem integração com os sistemas financeiros, não há como produzir dados com a rastreabilidade que um auditor exige.
Materialidade financeira construída internamente — não transposta do GRI. Todas as três empresas tinham matrizes de materialidade GRI robustas antes de iniciar o processo IFRS S1/S2. E todas as três precisaram construir um processo novo de materialidade financeira — porque a lógica é oposta. O benchmark mais importante que as pioneiras deixam para as demais é exatamente este: não tente adaptar o que você já tem. Comece o processo de materialidade financeira do zero, com a pergunta certa.
Reconhecimento de que o primeiro relatório não seria perfeito. Os depoimentos públicos das pioneiras têm em comum a honestidade sobre as limitações do primeiro ciclo — lacunas de dados de Escopo 3, estimativas onde dados primários não estavam disponíveis, processos que ainda estavam amadurecendo. Essa postura de transparência sobre limitações, desde que documentada metodologicamente, é exatamente o que o CBPS 01 permite e o que os auditores aceitam no primeiro ciclo.

Três lições das primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 para quem implementa agora

Os cases voluntários não são modelos para replicar — são referências para calibrar. Cada empresa tem setor, estrutura e exposição a riscos diferentes. Mas três lições transferem independentemente dessas variáveis.

Três lições práticas das pioneiras
Lição 1 — A sequência importa mais do que a velocidade. As primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 que tiveram implementações mais coerentes foram as que respeitaram a sequência: governança primeiro, materialidade segundo, coleta de dados terceiro, relatório por último. Empresas que inverteram essa ordem — começando pela coleta de dados ou pelo relatório — precisaram reprocessar informações. O CBPS 01 não é um relatório a ser preenchido. É uma infraestrutura a ser construída na ordem certa.
Lição 2 — Materialidade financeira é um processo, não uma lista. A “zona cinzenta” que Alexsandro Tavares, da Renner, descreveu não é uma falha da norma — é uma característica deliberada. O CBPS 01 não estabelece limiar quantitativo porque materialidade financeira depende do contexto específico de cada empresa, setor e momento. O que as pioneiras aprenderam é que o valor está no processo de avaliação — rigoroso, documentado e revisável — não na lista final de temas. Um auditor que avalia a asseguração do relatório de sustentabilidade IFRS S1 e S2 vai verificar o processo antes de verificar os resultados.
Lição 3 — O primeiro ciclo é de aprendizado — mas os dados não voltam. As pioneiras foram honestas sobre as limitações do primeiro relatório. Dados de Escopo 3 com qualidade limitada, estimativas onde dados primários não estavam disponíveis, processos que amadurecerão nos ciclos seguintes. Isso é aceitável e documentável. O que não é recuperável são os dados que não foram coletados com rastreabilidade durante o exercício — porque a asseguração razoável exige evidência de processo, não apenas de resultado. As primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 aprenderam isso na prática. As que implementam agora podem aplicar esse aprendizado desde o início de 2026.

Para entender como esses aprendizados se traduzem em um plano de ação concreto — com linha do tempo, perfis de empresa e passos específicos — leia o artigo como implementar o IFRS S1 e S2 na minha empresa. E para contextualizar onde as pioneiras chegaram em relação ao que o mercado ainda precisa fazer, leia IFRS S1 e S2 no Brasil: o que muda para companhias abertas.

“Trazemos maior profundidade de informação, com maior transparência — mostramos o que pode ser positivo e, em riscos, o que pode não dar certo.”

Marcelo Bacci — VP Executivo de Finanças da Vale

O que distingue as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 das demais não foi tamanho, setor ou orçamento. Foi a decisão de começar — e de começar pela ordem certa. Essa janela ainda está aberta para as companhias abertas que iniciam agora. Mas cada trimestre de 2026 que passa sem governança, materialidade e controles estruturados é um trimestre de dados irrecuperáveis. Para entender por que o relatório de sustentabilidade obrigatório 2027 não permite postergação, o contexto regulatório está detalhado no segundo artigo desta série.

Primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 — perguntas frequentes

Quais foram as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2?

Vale e Lojas Renner foram as duas primeiras companhias abertas brasileiras a aderirem voluntariamente às normas IFRS S1 e S2, antes da obrigatoriedade estabelecida pelas Resoluções CVM 217 e 218. A B3 também produziu relatório alinhado ao ISSB durante o período voluntário. De um universo de mais de 700 companhias abertas, apenas esses casos de adoção voluntária existiam até abril de 2025.

Qual foi o maior desafio que a Vale enfrentou na adoção do IFRS S2?

José Victor Sousa, gerente-geral de Reportes Financeiros e Controles Internos da Vale, descreveu publicamente que o maior desafio foi a curva de aprendizado das equipes para adaptar processos e controles. A integração entre os sistemas de reporte financeiro e os dados de sustentabilidade foi o ponto de maior esforço técnico.

Como as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 abordaram a materialidade financeira?

A materialidade financeira foi identificada por todas as pioneiras como o conceito mais desafiador. Alexsandro Tavares, da Lojas Renner, descreveu o processo como uma “zona cinzenta” pela ausência de um limiar quantitativo uniforme. O ponto comum foi a necessidade de construir o processo de avaliação internamente — sem modelo pronto para replicar.

Quais são os padrões comuns entre as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2?

Três padrões se repetem entre Vale, Renner e B3: governança definida antes da coleta de dados; envolvimento do CFO e da controladoria desde o início do projeto; e reconhecimento de que a materialidade financeira exige processo interno próprio — não transposição da matriz GRI existente.

O que as primeiras empresas brasileiras a adotar o IFRS S1 e S2 revelam sobre o que mais importa na implementação?

Os cases voluntários revelam que o maior risco não é técnico — é de sequência. Empresas que começaram pela governança e pela materialidade antes de estruturar a coleta de dados tiveram implementações mais coerentes e auditáveis. Empresas que começaram pela coleta de dados sem materialidade definida precisaram reprocessar informações — um custo evitável.

Se você quer comparar a situação da sua empresa com o que essas pioneiras fizeram — em governança, materialidade, dados e asseguração — o Painel de Prontidão IFRS S1/S2 da Auíri é o ponto de partida. Autodiagnóstico por pilar, mapa de gaps e linha do tempo para 2026/2027.

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Sobre a autora

Melissa Silvani é sócia e diretora de operações na Auíri, apaixonada por causas que importam e dedicada a construir pontes entre pessoas e propósitos.

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