📅 Publicado em: março de 2026
🕐 Tempo de leitura: 9 minutos
Escopo 3 é o conjunto de emissões que uma empresa não controla diretamente — mas que acontecem por causa dela. Compras de fornecedores, transporte contratado, uso dos produtos vendidos, fim de vida dos materiais: todas essas emissões são de terceiros, mas são responsabilidade de divulgação de quem está no centro da cadeia. Saber como medir emissões de Escopo 3 para o IFRS S2 começa por entender que o problema não é técnico. É estrutural.
A superintendente da SOI/CVM, Nathalie Vidual, resumiu o desafio com precisão: “Escopo 1 e 2 são mais fáceis de medir. O Escopo 3 abrange fornecedor e cliente, o que gera uma dificuldade adicional.” Essa dificuldade adicional tem um nome específico no contexto do IFRS S2: auditabilidade. Não basta calcular. É preciso que o cálculo seja verificável por um auditor independente — e isso exige uma infraestrutura de evidências que a maioria das empresas brasileiras simplesmente não tem.
O que o IFRS S2 exige sobre como medir emissões de Escopo 3 — e o critério que define o que divulgar
O CBPS 02 não exige que todas as 15 categorias de Escopo 3 do GHG Protocol sejam divulgadas indiscriminadamente. Exige que as categorias materiais sejam divulgadas — com o critério de materialidade financeira do CBPS 01 como filtro. Categorias excluídas precisam ser justificadas.
Na prática, isso significa que o processo de avaliação de materialidade financeira — discutido em profundidade no artigo sobre o que é materialidade financeira no IFRS S1 — define quais categorias de Escopo 3 precisam ser medidas com rigor auditável. Para uma empresa de varejo, a categoria 11 (uso dos produtos vendidos) provavelmente é material. Para uma mineradora, as categorias 1 (bens e serviços adquiridos) e 4 (transporte upstream) tendem a ser as mais relevantes.
Bens e serviços adquiridos · Bens de capital · Combustível e energia · Transporte e distribuição upstream
Resíduos gerados nas operações · Viagens corporativas · Deslocamento de funcionários · Ativos arrendados upstream
Transporte e distribuição downstream · Processamento dos produtos vendidos · Uso dos produtos vendidos · Fim de vida dos produtos vendidos
Ativos arrendados downstream · Franquias · Investimentos
O que o CBPS 02 exige além do número: para cada categoria material, a empresa precisa divulgar a abordagem de mensuração utilizada (dados de atividade com fatores de emissão, dados primários de fornecedores ou modelos baseados em gasto), as fontes de dados e fatores de emissão utilizados, e as premissas e limitações do cálculo. Esse conjunto de informações é o que permite ao auditor verificar o número — não o número em si.
O problema dos fornecedores brasileiros — e por que ele é estrutural, não pontual
O relatório do GHG Protocol/FGV sobre inventários de carbono no Brasil identificou com precisão o gargalo: a maioria dos fornecedores brasileiros, especialmente os de pequeno e médio porte, “não possui dados ou sequer entende o que é um inventário de carbono”. Isso não é um problema de engajamento — é um problema de capacidade instalada.
Para uma companhia aberta com centenas ou milhares de fornecedores na cadeia de valor, isso significa que a estratégia de “pedir dados aos fornecedores” não funciona como primeiro passo. Funciona como último passo — depois de ter identificado quais fornecedores são críticos do ponto de vista de emissões e depois de ter desenvolvido um protocolo de coleta que seja viável para empresas sem capacidade técnica em carbono.
- Enviar questionário genérico para todos os fornecedores
- Pedir dados sem especificar metodologia ou formato
- Aguardar resposta sem protocolo de follow-up
- Tratar a ausência de dados como justificativa para omitir a categoria
- Iniciar o engajamento de fornecedores no Q3 ou Q4 do exercício
- Mapear hotspots de emissão por categoria e fornecedor antes de engajar
- Concentrar esforço de coleta primária nos 20% de fornecedores que respondem por 80% das emissões
- Desenvolver protocolo simplificado de coleta para fornecedores sem capacidade técnica
- Usar estimativas com metodologia documentada para fornecedores de baixo impacto
- Iniciar engajamento no Q1 do exercício — não após o fechamento
A estratégia em quatro passos para medir emissões de Escopo 3 para o IFRS S2 com rastreabilidade
Não existe atalho para Escopo 3 auditável. Existe, no entanto, uma sequência lógica que minimiza o esforço nos fornecedores de baixo impacto e concentra rigor onde o auditor vai olhar com mais atenção.
Mapear a cadeia e identificar categorias materiais. Primeiro passo obrigatório: determinar quais das 15 categorias do GHG Protocol são materiais para o setor e para a empresa específica. Usar as normas SASB do setor como referência inicial. Para cada categoria material, estimar a ordem de magnitude das emissões — mesmo com dados grosseiros — para priorizar esforço de coleta.
Identificar hotspots e priorizar fornecedores críticos. Dentro de cada categoria material, identificar os fornecedores ou atividades que concentram a maior parte das emissões. A regra 80/20 tende a se aplicar: em geral, 20% dos fornecedores respondem por 80% das emissões de uma categoria. Concentrar esforço de dados primários nesses fornecedores críticos.
Estabelecer protocolo de coleta diferenciado por nível de criticidade. Para fornecedores críticos: dados primários com formato e metodologia especificados, validação de razoabilidade e documentação da fonte. Para fornecedores de impacto médio: dados de atividade com fatores de emissão setoriais documentados. Para fornecedores de baixo impacto: estimativas com metodologia transparente.
Construir o protocolo de evidências auditável. Para cada número do inventário de Escopo 3: registrar a fonte do dado, o fator de emissão utilizado e sua origem, a metodologia de cálculo aplicada e quem conduziu a coleta e quando. Esse registro é o que transforma um inventário em um documento que resiste à asseguração razoável.
O timing importa tanto quanto o método. Iniciar esse processo no Q3 ou Q4 de 2026 significa que os dados do primeiro semestre já foram coletados sem o protocolo adequado — e provavelmente não serão reconstruíveis com qualidade auditável. Para entender por que o exercício de referência exige estrutura desde o início, leia o artigo sobre o relatório de sustentabilidade obrigatório 2027.
O que fazer quando os dados de fornecedores não estão disponíveis — e o que o CBPS 02 aceita
O CBPS 02 reconhece explicitamente que dados primários de fornecedores frequentemente não estão disponíveis — especialmente no primeiro ciclo obrigatório. Permite o uso de estimativas, com uma condição não negociável: a metodologia precisa ser documentada e aplicada de forma consistente.
Nível 1 — Dados primários do fornecedor: inventário de carbono do próprio fornecedor, com metodologia verificada. Maior qualidade, maior esforço de coleta. Obrigatório para fornecedores críticos de categorias materiais.
Nível 2 — Dados de atividade com fatores de emissão específicos: volume de compras, distância percorrida ou quantidade de produto, multiplicado por fator de emissão específico para o tipo de atividade e região. Fonte dos fatores deve ser documentada.
Nível 3 — Dados de gasto com fatores de emissão médios: valor financeiro da compra multiplicado por fator de emissão médio por setor. Menor qualidade, maior praticidade. Aceitável para categorias de baixo impacto com metodologia documentada.
O que não é aceitável: omitir uma categoria material sem justificativa, ou usar estimativas sem documentar como foram calculadas.
A FGV/CEGÁS e o GHG Protocol Brasil disponibilizam fatores de emissão setoriais para o contexto brasileiro — incluindo fatores para a matriz elétrica nacional, transporte rodoviário e principais insumos industriais. Usar esses fatores, com documentação da fonte e da data de referência, é a abordagem aceita pelo CBPS 02 para situações onde dados primários não estão disponíveis.
Setores brasileiros com maior exposição a Escopo 3 no IFRS S2 — e o que isso significa na prática
Quatro setores concentram a maior parte da complexidade de Escopo 3 no contexto brasileiro — não apenas pelo volume de emissões, mas pela estrutura de cadeia de valor que torna a coleta de dados particularmente desafiadora.
Em todos esses setores, o ponto de atenção é o mesmo que o IFRS S1 coloca para materialidade financeira: o auditor vai verificar não apenas se as categorias certas foram incluídas, mas se a decisão sobre o que incluir foi fundamentada. Para entender como esse processo se conecta à avaliação de materialidade e à responsabilidade do C-level, leia o que o conselho e o CFO precisam saber sobre IFRS S1/S2 e o artigo base sobre IFRS S1 e S2 no Brasil.
José Victor Sousa — Gerente-geral de Reportes Financeiros e Controles Internos da Vale
Como medir emissões de Escopo 3 para o IFRS S2 — perguntas frequentes
Como medir emissões de Escopo 3 para o IFRS S2 de forma auditável?
Medir emissões de Escopo 3 para o IFRS S2 com rastreabilidade auditável exige quatro elementos: identificação das categorias materiais com base no GHG Protocol, coleta de dados primários nos fornecedores críticos, estimativas com metodologia documentada para os demais e um protocolo de evidências que permita ao auditor rastrear cada número até sua fonte. O dado isolado não é suficiente — o auditor vai verificar o processo que o gerou.
O IFRS S2 exige a divulgação de todas as 15 categorias de Escopo 3?
Não. O CBPS 02 exige a divulgação das categorias de Escopo 3 que forem materiais para a empresa, seguindo o critério de materialidade financeira do CBPS 01. Categorias excluídas precisam ser justificadas — o auditor vai verificar se a exclusão foi fundamentada ou se houve omissão não justificada de categorias relevantes para o setor.
O que fazer quando os fornecedores não têm dados de emissões disponíveis?
O CBPS 02 permite o uso de estimativas quando dados primários não estão disponíveis, desde que a metodologia seja documentada e aplicada de forma consistente. As fontes aceitáveis incluem fatores de emissão setoriais do GHG Protocol, dados de associações setoriais e modelos baseados em atividade. O que não é aceitável é omitir categorias materiais sem justificativa ou usar estimativas sem documentar a metodologia.
Qual a diferença entre medir Escopo 3 para relatório voluntário e para asseguração razoável?
Para relatório voluntário, medir significa calcular e divulgar um número. Para asseguração razoável, medir significa calcular, documentar a fonte de cada dado, registrar a metodologia aplicada, manter evidência de que o processo de coleta existia durante o exercício e permitir que um auditor rastreie cada número até sua origem. A diferença não é de precisão — é de infraestrutura de evidências.
Quais setores brasileiros têm maior exposição ao risco de Escopo 3 no IFRS S2?
Os setores com maior exposição são agronegócio, mineração, energia e varejo. Em todos esses setores, o Escopo 3 tende a representar proporção ainda maior do que a média de 80% das emissões totais — e as cadeias de fornecimento têm características que tornam a coleta de dados primários particularmente desafiadora.
O Painel de Prontidão IFRS S1/S2 da Auíri inclui uma seção específica sobre maturidade de dados climáticos — incluindo Escopo 3. Avalie onde sua empresa está em relação aos requisitos do CBPS 02 antes de iniciar o processo de coleta.
- IFRS S1 e S2 no Brasil: o que muda para companhias abertas a partir de 2026
- A CVM não vai adiar: o relatório de sustentabilidade obrigatório 2027 é definitivo
- Materialidade financeira no IFRS S1: o conceito que mais trava as empresas brasileiras
- O que o conselho e o CFO precisam saber sobre IFRS S1/S2
- Por que a firma que vai auditar seu relatório IFRS S1/S2 não pode ter feito a implementação
- O que as primeiras empresas brasileiras a adotar IFRS S1/S2 fizeram diferente
- Por onde começar: o caminho mais seguro para estar pronto para o IFRS S1/S2 em 2027
Melissa Silvani é sócia e diretora de operações na Auíri, apaixonada por causas que importam e dedicada a construir pontes entre pessoas e propósitos.
Sua cadeia de fornecedores está pronta para entregar dados auditáveis de Escopo 3? Podemos ajudar a estruturar esse processo.