📅 Publicado em: março de 2026
🕐 Tempo de leitura: 9 minutos
- O conceito que trava mais equipes no Brasil
- Por que materialidade financeira não é o mesmo que materialidade do GRI — nem dupla materialidade do CSRD
- Como o CBPS 01 define e operacionaliza o conceito
- O papel das normas SASB no processo
- O processo em quatro etapas — e onde as empresas erram
- Exemplos setoriais brasileiros
- Perguntas frequentes
Alexsandro Tavares, da Lojas Renner — uma das duas únicas empresas brasileiras a adotar voluntariamente o IFRS S1/S2 antes da obrigatoriedade — descreveu a materialidade financeira como “zona cinzenta” pela ausência de um limiar quantitativo uniforme. Clayton Codo, do Ibracon, foi mais preciso: “A materialidade financeira é uma grande novidade — as empresas, mesmo as mais maduras, não tinham essa visão e consequentemente não tinham cálculos financeiros de impactos.” O que é materialidade financeira no IFRS S1, portanto, não é apenas uma questão conceitual. É o ponto de partida de toda a implementação — e o lugar onde mais empresas brasileiras estão errando neste primeiro exercício obrigatório.
A paralisia que o conceito gera nas equipes técnicas tem uma causa específica: a maioria dos profissionais de ESG formou seu repertório a partir do GRI — um framework construído sobre uma lógica de materialidade completamente diferente. Quando o CBPS 01 exige materialidade financeira, está pedindo algo que inverte a direção do olhar. E inverter a direção do olhar exige mais do que aprender uma definição nova. Exige desaprender uma lógica que funcionou por anos — e reconstruir o processo de coleta de dados a partir de outra pergunta central.
No contexto regulatório brasileiro atual — com o exercício de referência de 2026 em curso, a CVM tendo rejeitado formalmente o pedido de adiamento da ABRASCA em fevereiro de 2026 e a asseguração razoável exigida desde o primeiro relatório —, a análise de materialidade financeira não é uma entrega futura. É um processo que precisa estar estruturado agora, porque define quais dados precisam ser coletados com rastreabilidade auditável ao longo do ano.
Por que materialidade financeira no IFRS S1 não é o mesmo que materialidade do GRI — nem dupla materialidade do CSRD
Existem hoje três conceitos de materialidade em uso simultâneo no mercado de reporte de sustentabilidade. Eles não são variações do mesmo princípio — são lógicas distintas, com perguntas centrais diferentes, audiências diferentes e implicações operacionais diferentes. Tratá-los como equivalentes é o erro mais caro que uma empresa pode cometer na implementação do IFRS S1.
- Pergunta central: o que nossa empresa causa no mundo?
- Direção: de dentro para fora
- Audiência: stakeholders em geral — comunidades, ONGs, reguladores, sociedade
- Critério: relevância dos impactos reais ou potenciais sobre pessoas e meio ambiente
- Resultado: matriz de materialidade com temas priorizados por impacto
- Pergunta central: o que pode afetar nosso valor para os investidores?
- Direção: de fora para dentro
- Audiência: investidores e mercado de capitais
- Critério: capacidade de influenciar razoavelmente as decisões dos investidores
- Resultado: lista de temas com impacto financeiro relevante — quantificado ou qualificado
O CSRD/ESRS europeu adota dupla materialidade — exige simultaneamente as duas perspectivas: a financeira (como riscos e oportunidades de sustentabilidade afetam a empresa) e a de impacto (como a empresa afeta o mundo). Uma empresa sob o CSRD precisa responder às duas perguntas e divulgar os dois resultados.
O IFRS S1 (CBPS 01 no Brasil) adota exclusivamente materialidade financeira. Não há exigência de divulgação de impactos da empresa sobre o mundo — apenas de como riscos e oportunidades de sustentabilidade afetam o desempenho financeiro da empresa.
Isso cria uma situação concreta para um número crescente de companhias abertas brasileiras: empresas com receita acima de €450M na Europa, subsidiárias europeias ou que sejam fornecedoras estratégicas de grupos europeus precisarão navegar os dois frameworks simultaneamente — com lógicas de materialidade opostas, audiências diferentes e processos de asseguração distintos. Não há como unificar os dois processos em uma única análise. O que pode ser feito é estruturar o processo de forma que a análise de materialidade financeira (CBPS 01) sirva como base, e a perspectiva de impacto (CSRD) seja adicionada como camada complementar — mas com equipe e metodologia separadas.
A distinção prática mais importante para o contexto brasileiro: uma empresa pode ter impactos ambientais significativos que não são materiais financeiramente para os investidores — e pode ter exposições a riscos climáticos que são altamente materiais financeiramente mas que não aparecem como prioridade em sua matriz GRI. As duas análises são legítimas nos seus respectivos frameworks. Mas para o CBPS 01 e a CVM, apenas a perspectiva financeira é exigida — e apenas ela será objeto de asseguração razoável.
Como o CBPS 01 define materialidade financeira — e o que isso exige na prática
O CBPS 01 define materialidade financeira com precisão: uma informação relacionada à sustentabilidade é material se sua omissão, distorção ou obscurecimento pode razoavelmente influenciar as decisões que os usuários primários das demonstrações financeiras tomam com base nessas informações.
Os usuários primários são investidores existentes e potenciais, credores e outros financiadores. Não são stakeholders em geral. Não são comunidades afetadas. Não são reguladores ambientais. São os agentes que tomam decisões de alocação de capital com base nas informações financeiras da empresa — e que, no contexto brasileiro atual, estão cada vez mais usando critérios ESG para precificar risco e custo de capital.
Para cada tema de sustentabilidade, a empresa precisa avaliar se ele representa risco ou oportunidade que pode razoavelmente:
- Afetar os fluxos de caixa futuros no curto, médio ou longo prazo — por exemplo, custos adicionais de adequação regulatória, perda de receita por mudança de demanda ou economias decorrentes de eficiência energética
- Influenciar o custo de capital ou o acesso a financiamento — por exemplo, restrições de acesso a linhas de crédito verde, aumento do spread em emissões de dívida ou exclusão de índices ESG que afetam a base de investidores
- Impactar decisões de CAPEX — por exemplo, necessidade de substituição antecipada de ativos em regiões de alto risco climático físico, ou investimentos forçados em tecnologias de baixo carbono para manter licença operacional
- Criar passivos contingentes relevantes — regulatórios, legais ou operacionais — como multas ambientais, ações judiciais por danos climáticos ou remediação de passivos ambientais
- Afetar a reputação com impacto mensurável — não como conceito difuso, mas como vetor concreto de risco financeiro: perda de contratos, saída de investidores institucionais ou queda na percepção de risco por agências de rating
A avaliação precisa ser documentada — o auditor vai verificar o raciocínio que levou à inclusão ou exclusão de cada tema, não apenas a lista final.
Essa exigência de documentação é o que mais surpreende as equipes técnicas. No GRI, a decisão sobre o que incluir na matriz de materialidade é relativamente flexível e pode ser justificada narrativamente. No CBPS 01, a decisão precisa ser rastreável — com evidência de que o processo foi conduzido, que os temas relevantes para o setor foram considerados e que a conclusão sobre materialidade ou não-materialidade foi fundamentada. Isso é especialmente crítico no contexto brasileiro de 2026: o exercício de referência já está em curso, e dados coletados sem esse processo estruturado não poderão ser reconstituídos com qualidade auditável.
O papel das normas SASB na identificação de temas materiais para o IFRS S1
O CBPS 01 não deixa a empresa sozinha na identificação de temas potencialmente materiais. Exige que as empresas considerem as normas SASB do seu setor como ponto de partida para o processo de avaliação de materialidade financeira.
As normas SASB foram desenvolvidas especificamente com lógica de materialidade financeira — organizadas por setor, identificam os temas de sustentabilidade com maior probabilidade de impacto financeiro relevante para cada indústria. Para uma empresa de energia elétrica no Brasil, os temas SASB incluem emissões de gases de efeito estufa, gestão de água e resiliência de infraestrutura a eventos climáticos extremos — todos com conexão direta ao modelo de negócio de geradoras e distribuidoras que operam em um sistema altamente dependente de hidrologia. Para uma empresa de varejo alimentar, incluem segurança de alimentos, rotatividade de mão de obra e embalagens sustentáveis — temas que, no contexto brasileiro, se traduzem em riscos regulatórios, de imagem e de custo operacional muito concretos.
O processo de avaliação de materialidade financeira no IFRS S1 em quatro etapas
A análise de materialidade financeira não é um exercício de listagem — é um processo de avaliação estruturado que precisa ser documentado com rigor suficiente para suportar asseguração razoável. Quatro etapas definem o processo mínimo que o CBPS 01 exige.
Identificar o universo de temas relevantes para o setor. Ponto de partida: normas SASB do setor, complementadas por análise do contexto regulatório brasileiro (incluindo as Resoluções CVM 217 e 218, a Resolução CMN 5.185 para instituições financeiras e eventuais regulações setoriais da ANEEL, ANP ou ANVISA), benchmarks de peers e consulta a especialistas. O objetivo é garantir que nenhum tema com potencial de materialidade financeira seja ignorado antes da avaliação.
Avaliar o impacto financeiro razoável de cada tema. Para cada tema identificado, avaliar: qual é a probabilidade de que esse risco ou oportunidade se materialize no curto, médio ou longo prazo? Qual seria o impacto nos fluxos de caixa, no custo de capital, no CAPEX planejado ou na posição competitiva? A avaliação pode ser quantitativa ou qualitativa — mas precisa ser fundamentada e conectada às demonstrações financeiras da empresa.
Concluir sobre materialidade com documentação de processo. Para cada tema: material (incluir no relatório com divulgação completa), potencialmente material (monitorar e revisar), ou não material (excluir com justificativa documentada). A documentação da decisão é tão importante quanto a decisão em si — é ela que o auditor vai verificar na asseguração razoável.
Integrar a análise ao processo de coleta de dados. A análise de materialidade não é um exercício paralelo ao relatório — é o que define quais dados precisam ser coletados com rastreabilidade auditável ao longo do exercício de 2026. Concluir a análise depois da coleta de dados inverte a lógica e compromete a qualidade das evidências. No contexto do primeiro ciclo obrigatório brasileiro, essa inversão é o risco mais comum e mais difícil de corrigir a posteriori.
Materialidade financeira no IFRS S1 na prática: exemplos setoriais com impacto no negócio
A abstração do conceito dissolve quando aplicada a setores específicos do mercado brasileiro. Três exemplos ilustram como o processo de avaliação de materialidade financeira funciona na prática — e como riscos de sustentabilidade se traduzem em impactos concretos sobre o balanço, o CAPEX e o custo de capital.
Uma geradora de energia elétrica com usinas hidrelétricas no Sudeste brasileiro convive com a volatilidade hidrológica há décadas — mas o que o CBPS 02 exige vai muito além do reconhecimento narrativo desse risco. A análise de materialidade financeira precisa demonstrar como diferentes cenários climáticos afetam concretamente as demonstrações financeiras da empresa.
Na prática, isso significa: se cenários de aquecimento de 1,5°C ou 2°C implicam redução de 15% no fator de capacidade das usinas ao longo da próxima década, qual é o impacto sobre o valor contábil dos ativos? Há necessidade de impairment antecipado? O CAPEX planejado para os próximos cinco anos inclui investimentos em diversificação da matriz — solar ou eólica — como resposta a esse risco? Esses investimentos foram dimensionados considerando os cenários climáticos exigidos pelo CBPS 02?
A diferença entre “estamos expostos a riscos hidrológicos” e “cenários de redução de precipitação de X% no Sudeste implicam necessidade de CAPEX adicional de R$ Y bilhões para manutenção do nível de geração” é exatamente a diferença entre um relatório narrativo e uma divulgação materialmente financeira. E é essa diferença que o auditor vai verificar.
Uma varejista de moda listada na B3 que sofre um escândalo de trabalho análogo ao escravo em sua cadeia de fornecedores enfrenta, imediatamente, um risco que vai muito além da reputação: cancelamento de contratos por varejistas internacionais que integram sua receita de exportação, saída de fundos de investimento ESG que detêm posição relevante no capital, e deterioração do spread nas próximas emissões de dívida — já que as agências de rating passam a tratar governança de cadeia de fornecedores como fator de risco de crédito.
Esse é exatamente o mecanismo que a materialidade financeira do CBPS 01 exige que a empresa demonstre que entende. Não é suficiente dizer que “práticas trabalhistas na cadeia de fornecedores são um tema relevante para nossa imagem”. É preciso documentar: quais são os mecanismos pelos quais esse risco se transmite ao desempenho financeiro? Qual é a probabilidade de materialização considerando o perfil da cadeia de fornecedores da empresa? Quais controles existem — e como são monitorados?
No contexto brasileiro, onde a maioria das varejistas listadas tem cadeias de fornecedores concentradas no interior do Nordeste e do Sul com baixa formalização trabalhista, esse tema não é abstrato. É um risco de negócio mensurável — e precisa ser tratado como tal no relatório CBPS 01.
Uma empresa de processamento de soja com cadeia de fornecimento concentrada no Cerrado enfrenta dois vetores simultâneos de risco climático materialmente financeiro. O primeiro é físico: variabilidade crescente de precipitação e eventos de seca que afetam a disponibilidade e o custo da matéria-prima. O segundo é de transição: regulação de desmatamento e rastreabilidade de origem que, se não cumprida, pode resultar em exclusão de mercados internacionais que respondem por parcela relevante da receita.
Ambos os riscos têm impacto direto sobre o acesso a financiamento. Bancos brasileiros signatários dos Princípios do Equador e do PCAF — como Itaú, Bradesco e Santander Brasil — estão progressivamente vinculando condições de crédito à rastreabilidade da cadeia de fornecedores e à exposição a riscos de desmatamento. Uma empresa de processamento que não consegue demonstrar rastreabilidade do bioma de origem de sua soja pode encontrar restrições crescentes em linhas de crédito subsidiadas e em emissões de CRA verde — que, no mercado brasileiro de 2024 e 2025, representaram volumes recordes.
O que a análise de materialidade financeira exige neste caso: mapear o perfil geográfico da cadeia de fornecedores, quantificar a exposição a riscos físicos e de transição por microrregião, e demonstrar como esses riscos afetam — ou poderiam afetar — o custo e a disponibilidade de financiamento. Não como exercício regulatório. Como informação que um investidor ou credor precisa para tomar decisões de alocação de capital.
Em todos os casos, o ponto crítico é o mesmo: materialidade financeira exige que a empresa demonstre que entende o mecanismo pelo qual o risco ou oportunidade de sustentabilidade afeta seu desempenho financeiro. Não basta identificar o tema — é preciso traçar o caminho entre o tema e o balanço, o CAPEX, o custo de capital ou o acesso a financiamento. Para entender como o Escopo 3 da cadeia de fornecedores se conecta a esse processo no contexto do IFRS S2, leia o artigo como medir emissões de Escopo 3 para o IFRS S2.
A análise de materialidade financeira não é o único requisito do CBPS 01 que exige documentação de processo. Ela é, no entanto, o pré-requisito de tudo. Sem saber o que é material, a empresa não sabe quais dados coletar, quais controles implementar e quais divulgações fazer. É o ponto onde a implementação começa — e onde, quando feito errado, compromete todo o exercício. Para entender o quadro completo de onde sua empresa está nesse processo, leia IFRS S1 e S2 no Brasil: o que muda para companhias abertas e por que o relatório de sustentabilidade obrigatório 2027 não pode mais ser postergado.
Clayton Codo — Ibracon
O que é materialidade financeira no IFRS S1 — perguntas frequentes
O que é materialidade financeira no IFRS S1 e como ela se diferencia da materialidade do GRI?
A materialidade financeira no IFRS S1 (CBPS 01 no Brasil) define que uma informação é material se sua omissão ou distorção pode influenciar razoavelmente as decisões dos investidores. O olhar é de fora para dentro — como riscos e oportunidades de sustentabilidade afetam o desempenho financeiro da empresa. O GRI adota materialidade de impacto: o olhar é de dentro para fora — como a empresa afeta o mundo. São lógicas opostas, não complementares.
Qual a diferença entre materialidade financeira do IFRS S1 e dupla materialidade do CSRD europeu?
O CSRD/ESRS europeu adota dupla materialidade — exige simultaneamente a perspectiva financeira (como riscos afetam a empresa) e a perspectiva de impacto (como a empresa afeta o mundo). O IFRS S1 (CBPS 01) adota exclusivamente materialidade financeira. Empresas brasileiras com operações na Europa, receita acima de €450M no mercado europeu ou que sejam fornecedoras estratégicas de grupos europeus precisarão navegar os dois frameworks com lógicas de materialidade distintas no mesmo exercício.
Como as normas SASB se relacionam com a materialidade financeira no IFRS S1?
O CBPS 01 exige que as empresas considerem os tópicos das normas SASB do seu setor como ponto de partida para identificação de temas materiais. As normas SASB foram desenvolvidas especificamente com lógica de materialidade financeira — organizadas por setor, identificam os temas de sustentabilidade com maior probabilidade de impacto financeiro relevante para cada indústria.
Quais são os erros mais comuns das empresas brasileiras ao aplicar materialidade financeira no IFRS S1?
Os três erros mais frequentes são: usar a matriz de materialidade do GRI como substituto; não documentar o processo de decisão; e confundir relevância de comunicação com materialidade financeira. Em todos os casos, o resultado é o mesmo: gaps que o auditor vai identificar na asseguração razoável exigida pela CVM desde o primeiro ciclo obrigatório.
A análise de materialidade financeira precisa ser refeita a cada exercício?
O CBPS 01 exige que a análise seja revisada quando há mudanças significativas no contexto de negócio, no ambiente regulatório ou na exposição a riscos. Para o primeiro ciclo obrigatório, a análise precisa estar concluída antes do fechamento do exercício de 2026 — não apenas antes da publicação do relatório em 2027.
O Painel de Prontidão IFRS S1/S2 da Auíri inclui uma seção específica sobre avaliação de materialidade financeira — com checklist por área e mapa dos gaps mais comuns em companhias abertas brasileiras. É o ponto de partida para saber onde sua empresa está antes de iniciar o processo.
- IFRS S1 e S2 no Brasil: o que muda para companhias abertas a partir de 2026
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- Por onde começar: o caminho mais seguro para estar pronto para o IFRS S1/S2 em 2027
Melissa Silvani é sócia e diretora de operações na Auíri, apaixonada por causas que importam e dedicada a construir pontes entre pessoas e propósitos.
Sua equipe já sabe quais temas são materiais financeiramente para o seu setor? Podemos ajudar a estruturar esse processo.